FUNCIONAL

A palavra mágica do universo dos problemas psicológicos.

Significa que você está indo bem no caminho de fingir que está tudo bem.

Significa que você consegue trabalhar, tomar banho, responder (algumas mensagens), comer o suficiente. Parecer quase normal.

Significa que você está bem o suficiente pras pessoas acharem que você é preguiçoso, desagradável, fresco e quer chamar atenção. Mas mal o suficiente pra se sentir uma merda todos os dias.

Mas está tudo bem.

Porque você ainda não perdeu seu emprego.

Ainda não começou a bater a cabeça ou gritar com os outros na rua.

Ainda não teve “um dia de fúria”.

Ainda não abriu os pulsos numa banheira.

Ainda não…

Então está tudo bem, não há com que se preocupar.

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NATUREZA

Sou chuva violenta

Ondas no mar revolto

Sou a cachoeira que ressoa longe

Essa é quem eu sou

 

Mas às vezes o vento muda

E afasta as águas de mim

A seca me arrasa

E minha natureza parece perdida

Meu leito fica exposto,

Árido e quebradiço

E as flores morrem à margem de mim

 

Mas não se deixe enganar pela estiagem

Por baixo do pó e da lama

Ainda sou enxurrada

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HELÔ

Eu ainda não chorei por você

Mas eu vou…

 

Vou aceitar que você veio,

Vou me despedir de você,

E vou deixar que vá embora.

 

Então, enfim, vou chorar por você.

E vai doer.

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NÃO-POEMA

Não quero perder um minuto escrevendo

Sobre os lençóis manchados,

Nossos cheiros no ar

Ou o suor que escorre

Nos pelos e peles
Quero  é que seus dentes 

Rimem com a minha carne!

Deixa que nossos corpos

Criem os sons e os versos
As águas que fluem

Serão nossa poesia!

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Você tem amigos

– O que foi isso?

– O gato me arranhou.

– Humm… Você não é a primeira pessoa que se machuca que eu atendo. E eu tenho gatos, sei que as marcas não são assim.

– Meu gato tem a pata torta, ok?

– Você não precisa mentir pra mim.

– Preciso sim. Preciso mentir pra todo mundo. “Melancolia não dá ibope”. Ninguém quer ficar perto da pessoa que quer morrer.

– Você quer morrer?

– …

– Quer?

– Não acho que eu queira de verdade. Mas eu penso bastante no assunto. Acho que me fascina um pouco.

– Você tomou um vidro inteiro de remédio. Não me parece uma questão de fascínio.

– Um vidro e meio. Eu precisava dormir.

– Um vidro e meio, certo.

– Eu não acho que eu queira morrer agora, mas acho que morrer deveria ser fácil. Uma escolha simples. Sem ter que cortar a veia certa, ou achar a melhor combinação de remédios, ou conseguir uma porra de uma arma. Um comprimido e pronto. Como aquelas capsulas que os soldados alemães mastigavam quando era presos, sabe?

– Sei.

– Então. Acho que todo mundo deveria ter acesso a uma opção prática e tranquila de suicídio.

– Por quê?

– Acho que eu ficaria mais tranquila se não me sentisse presa aqui. Em mim. É desesperador sentir isso, é uma claustrofobia de si mesmo! Acho que ficaria mais calma sabendo que sair fora é uma opção a qualquer momento.

– Uma saída de emergência?

– É, uma saída de emergência.

– Mas nesse caso o prédio desmorona depois que você sai dele. Não tem como voltar.

– Eu sei.

– …

– Mas isso faz toda a diferença. Somos adultos. É uma escolha difícil, mas que é minha. Precisa ser uma opção consciente, mas mesmo assim.

– Você acha que têm condições de tomar essa decisão conscientemente no meio de uma crise?

– …Não. Não sei. Poderia ter. O fato de eu ter tantas crises é um bom motivo pra eu fazer essa escolha. E a melhor parte é que não posso me arrepender depois, mesmo que seja a escolha errada.

– Mas você é espírita. Talvez você se arrependa depois. Como pode dizer que não tem como se arrepender depois se você acredita que existe algo além da morte.

– Passei muito tempo sendo cética. É difícil desapegar de algumas manias.

– Acreditar que não existe nada além da morte é uma “mania”?

– [Pausa] Eu não queria morrer. Queria deixar de existir, é diferente. Ou deixar de ser eu… Ou me destruir. Às vezes fico com tanta raiva de mim que quero… Sangrar… Quero enfiar os dedos nas costelas e puxar minha pele pra fora, queria esmagar meu pulmão com as mãos…

– Essa é uma imagem bem forte.

– É só uma imagem. Tem que forçar um pouco a imagem pra desenhar o sentimento, às vezes.

– Você disse que precisa mentir pra todo mudo, que… “melancolia não dá ibope”? É isso?

– É uma música.

– Certo. Você sente que as pessoas vão se afastar se você se abrir?

– Sinto que vão se afastar por muito menos. Estou cansada de me sentir sozinha, mas eu entendo. Faz sentido que ninguém queira estar por perto.

– Você tem medo de ficar sozinha?

– Pavor.

– Mas você tem amigos.

– Rsrs

– Que foi?

– Essa é a fala de uma peça. Uma peça sobre uma paciente conversando com um terapeuta. É engraçado. A coincidência, não a peça.

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BRINCADEIRA

​Quando foi que cresci
E brincar virou coisa feia?

Gosto de brincar com o corpo
Quebrar cabeças de palavras
Jogar com flores e luzes
Brincar com meu desejo por ti

Ai, que boba sou eu!
Ai, que brincadeira perigosa
Essa te querer assim!

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Poema

O senhor veja,
É claro que prefiro escrever poesia
Mas há que se comprar o pão, entende?

E de mais a mais, há música em todo som
Há dança em toda pisada
E teatro em toda mentira.
De mais a mais,
Toda palavra é poema.

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