EMBRIÃO

Quando informei minha família que estava prestando vestibular para o curso de Artes Cênicas recebi como resposta um autêntico e intenso susto: “Pra fazer o quê?!” – me disse uma tia.
Pois é, pra que fazer teatro? O que eu pretendo com isso? Melhor, dizendo o que a minha geração (acadêmicos ou não) pretende em ser artista?
Esse foi basicamente o questionamento mais intenso da minha turma neste último semestre: As pessoas não vão ao teatro. Nossa sociedade mantém o conservadorismo e elitismo que separa artistas de meros mortais, por um lado (o público não se sente autorizado a interpretar a arte por si só), mas por outro foi absorvido o conceito de que qualquer coisa pode ser arte (quantos artistas você viu na Casa dos Artistas?).
Conjugamos o pior dos últimos séculos: levamos ao extremo a barreira aristocrata/ burguesa que constitui a idéia de que arte não pode ser apreciada por qualquer um e, ao mesmo tempo, deturpamos as inovações das vanguardas que queriam destruir justamente essa barreira e levar a arte para as massas, para a vida, para todos os cantos: eles tentaram ampliar os horizontes do conceito de “o que é arte”, nós fingimos que arte é qualquer coisa.
No meu ponto de vista, isso é uma forma de dar para a massa uma suposta arte, para acalmar as fomes, sem, no entanto, macular o “tesouro dos cultos”. Uma forma de dar, sem dar o acesso a arte. É preciso mudar as coisas para que elas continuem como estão.
Dentro deste quadro, ocorre, portanto, uma grande confusão de conceitos: a própria noção de artista, a definição da palavra, mesmo é, hoje, difícil de se construir. Parece que a palavra perdeu o sentido. É difícil para o próprio “artista” se definir. Por que fazemos arte?
No meio de uma discussão intensa a esse respeito, durante a aula de interpretação do professor Antônio Januzzeli, uma das alunas mais brilhantes do grupo tocou num ponto essencial: Gabriela Maiume propôs a criação de uma nova palavra para definir o que somos e o que fazemos – já que “artista” parece apenas um som vaziu – e demonstrou suas intenções de escrever um manifesto pela posição da arte hoje.
Enquanto isso, do outro lado da sala, eu escrevia tudo o que me vinha a mente, tudo o que eu achava que tinha de ser dito a este respeito. Eu, Gabriela e outras pessoas estamos nos dedicando a debater e construir esse manifesto e, aos poucos pretendo ir expondo os progressos desta empreitada, aqui no Blog.
Abaixo está apenas a minha parte neste embriãozinho. Pseudomanifesto de um imediatismo brutal, sem grandes lapidações, e que reflete apenas a minha opinião – oficialmente. Deixem suas opiniões, dêem palpites – isso vai ser importante para o amadurecimento destas idéias.

São Paulo, 30 de junho de 2005.
Pseudomanifesto artístico:

– Nós fazemos arte para descascar o homem. Não porque ele precise ser levado pela mão, feito criança, mas porque a arte tem o poder de descascar.

– Se “artista” virou uma palavra sem sentido, então criemos outra, mais à altura do que fazemos. Somos agentes da arte.

– A arte é o óleo da sociedade.

– O nosso público não precisa que lhe contemos a “verdade”. Nós não sabemos a verdade. Somos apenas o lubrificante, a engrenagem já existe e funciona sozinha.

– O público não precisa ser salvo! Não somos detentores de um poder, mas sim, responsáveis pelo efeito que causamos.

– A arte auxilia o movimento humano. É o pessoal no contexto.

– Nós fazemos arte para suscitar o diálogo, para gerar movimento, então façamos algo que dialogue, que se movimente!

– O importante é tocar.

– Tornemos a arte acessível para a autopermissão de cada um. Desçamos a arte deste pedestal elitista para que o público não precise pedir permissão ao nos olhar.

– Se o público não se interessa é porque não somos interessantes. Tornemo-nos interessantes e pertinentes para o público: caminhemos até ele.

– Não estamos fazendo favores, essa é a nossa profissão.

– Não somos mais educadores ou mais políticos que outros profissionais. Todos são atores do mundo.

– Não trazemos respostas: viemos armados com perguntas na agulha. Necessitamos/suscitamos questionamento.

– A arte nunca pode deixar de ser comunicação. Não há razão de ser na arte que não pode ser compartilhada.

– Somos apenas mais uma via, mas somos uma via. Veículos. Somos comportas abertas, podem passar!

– Lutamos por uma postura de classe que não signifique a clausura da classe.

– Queremos abrir a roda para fora.

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Sobre mafaldamaya

Garota meio verborrágica, meio não mais garota, meio nem sei mais...
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2 respostas para EMBRIÃO

  1. Débora disse:

    Oi Maíra! Adorei! Estarei sempre por aqui, afinal, tenho muitas horas vagas aqui no trabalho!Bom, amei aquilo do óleo da sociedade, porque é o que deixa gostoso todo o processo, não faz parte das peças, da engrenagem, e sim, dá o movimento (ou deveria né?). É isso que todos precisam, de movimento, de diálogo mesmo. A arte precisa mesmo fazer as perguntas, mesmo quando não houver respostas, ou principalmente quando não houver! A sociedade precisa mesmo pensar, não o teatro, a música, toda e qualquer arte pensar por ela!!!E última coisa…te amo!Beijos amigueca!Ah, conheça o meu também, apesar de um pouco dramático (e não no sentido cênico) e empoeirado…

  2. Tavinho disse:

    Eu torço pra sermos um dia balineses, e não termos no vocabulário corrente a palavra arte e nem equivalente. Tudo aquilo que chamamos de arte hoje será prática diária e natural.Beijos!

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