Você tem amigos

– O que foi isso?

– O gato me arranhou.

– Humm… Você não é a primeira pessoa que se machuca que eu atendo. E eu tenho gatos, sei que as marcas não são assim.

– Meu gato tem a pata torta, ok?

– Você não precisa mentir pra mim.

– Preciso sim. Preciso mentir pra todo mundo. “Melancolia não dá ibope”. Ninguém quer ficar perto da pessoa que quer morrer.

– Você quer morrer?

– …

– Quer?

– Não acho que eu queira de verdade. Mas eu penso bastante no assunto. Acho que me fascina um pouco.

– Você tomou um vidro inteiro de remédio. Não me parece uma questão de fascínio.

– Um vidro e meio. Eu precisava dormir.

– Um vidro e meio, certo.

– Eu não acho que eu queira morrer agora, mas acho que morrer deveria ser fácil. Uma escolha simples. Sem ter que cortar a veia certa, ou achar a melhor combinação de remédios, ou conseguir uma porra de uma arma. Um comprimido e pronto. Como aquelas capsulas que os soldados alemães mastigavam quando era presos, sabe?

– Sei.

– Então. Acho que todo mundo deveria ter acesso a uma opção prática e tranquila de suicídio.

– Por quê?

– Acho que eu ficaria mais tranquila se não me sentisse presa aqui. Em mim. É desesperador sentir isso, é uma claustrofobia de si mesmo! Acho que ficaria mais calma sabendo que sair fora é uma opção a qualquer momento.

– Uma saída de emergência?

– É, uma saída de emergência.

– Mas nesse caso o prédio desmorona depois que você sai dele. Não tem como voltar.

– Eu sei.

– …

– Mas isso faz toda a diferença. Somos adultos. É uma escolha difícil, mas que é minha. Precisa ser uma opção consciente, mas mesmo assim.

– Você acha que têm condições de tomar essa decisão conscientemente no meio de uma crise?

– …Não. Não sei. Poderia ter. O fato de eu ter tantas crises é um bom motivo pra eu fazer essa escolha. E a melhor parte é que não posso me arrepender depois, mesmo que seja a escolha errada.

– Mas você é espírita. Talvez você se arrependa depois. Como pode dizer que não tem como se arrepender depois se você acredita que existe algo além da morte.

– Passei muito tempo sendo cética. É difícil desapegar de algumas manias.

– Acreditar que não existe nada além da morte é uma “mania”?

– [Pausa] Eu não queria morrer. Queria deixar de existir, é diferente. Ou deixar de ser eu… Ou me destruir. Às vezes fico com tanta raiva de mim que quero… Sangrar… Quero enfiar os dedos nas costelas e puxar minha pele pra fora, queria esmagar meu pulmão com as mãos…

– Essa é uma imagem bem forte.

– É só uma imagem. Tem que forçar um pouco a imagem pra desenhar o sentimento, às vezes.

– Você disse que precisa mentir pra todo mudo, que… “melancolia não dá ibope”? É isso?

– É uma música.

– Certo. Você sente que as pessoas vão se afastar se você se abrir?

– Sinto que vão se afastar por muito menos. Estou cansada de me sentir sozinha, mas eu entendo. Faz sentido que ninguém queira estar por perto.

– Você tem medo de ficar sozinha?

– Pavor.

– Mas você tem amigos.

– Rsrs

– Que foi?

– Essa é a fala de uma peça. Uma peça sobre uma paciente conversando com um terapeuta. É engraçado. A coincidência, não a peça.

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Sobre mafaldamaya

Garota meio verborrágica, meio não mais garota, meio nem sei mais...
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